Oie, eu sou Jacqueline Scheibe.

por Jaqueline Scheibe

Uma leitora qualquer — mas talvez não qualquer leitora.

E antes que você pense que esta será apenas mais uma coluna sobre livros difíceis, autores antigos ou análises distantes da vida real, eu queria te fazer um convite simples: dê uma chance à leitura. Não à leitura perfeita. Não à leitura elitizada. Apenas ao ato de ler. Ler é um hábito que nunca pertenceu somente aos intelectuais, às bibliotecas silenciosas ou às pessoas que terminam cinquenta livros por ano.

Ler está em tudo.

Está na mensagem que você envia e espera receber. Na legenda que te faz parar alguns segundos a mais. Está no versículo sublinhado, na carta esquecida dentro de um livro, no bilhete deixado às pressas antes de sair para o trabalho. Ler está no aprendizado, mas também no descanso. Está na informação diária, mas também no prazer quase silencioso de encontrar uma frase que parece ter sido escrita exatamente para você. Ler é um ato de domesticar o cérebro e a mente a pensar, pode parecer domesticação quqando infligido à força, mas acredite, pode ser muito leve e gostoso, porque para muitos é infligido à força, torna-se um hábito de transformação social, mental e intelectual. Ningém é o mesmo depois de um livro.

Ler é um direito.

E talvez uma das formas mais bonitas de voltar para dentro de si em tempos tão barulhentos.

E é pensando justamente nisso que essa coluna se posiciona: Leia! Não para ensinar ninguém a ler clássicos, mas para lembrar que a literatura pode ser menos inacessível do que parece. E que muitos livros antigos falam, de maneira assustadoramente humana, sobre sentimentos que continuam vivos (aí dentro de você) hoje. Leia porque você encontra acolhimento, leia para se conhecer, leia para construir e desconstruir quantas vezes forem necessárias crenças limitantes, leia para se surpeender, leia para se divertir, insista na leitura. E isso sem considerar os ganhos cognitivos associados à leitura. Diversos estudos apontam sua contribuição para o desenvolvimento cerebral, da memória, da atenção e do pensamento crítico. Embora esses benefícios sejam amplamente reconhecidos e relevantes, eles representam apenas uma parte de tudo o que a leitura pode proporcionar. Mas, epero sinceramente, que você leia para encontrar-se consigo mesmo e com sorte fazer muitos amigos dentro das páginas, e talvez alguns inimigos necessários. Afinal, o que é uma boa história sem um antagonista não é mesmo?

Começaremos pelos clássicos — (não se assuste ainda) existe um motivo para isso.

Quando abrimos um romance do século XIX, não estamos apenas diante de uma história. Estamos diante de um tempo inteiro. Um período em que não existiam celulares, fotografias instantâneas, vídeos ou registros rápidos da vida cotidiana como temos hoje. Muito do que aquelas pessoas sentiram, pensaram e viveram chegou até nós através da arte: da pintura, do teatro e, sobretudo, da literatura.

Talvez por isso os clássicos tenham permanecido uma vez que conservaram emoções humanas mesmos após tantas mudanças no mundo.

E poucos períodos produziram retratos tão intensos da vida quanto a Era Vitoriana. Um tempo de avanços industriais, crescimento econômico, luxo, etiqueta, mas também de solidão, desigualdade, rigidez social, solidão e silêncios sufocantes. Não diferentes dos dias de hoje no Brasil, vai).

A Victorian Era foi o período da história do Reino Unido marcado pelo reinado da Queen Victoria, entre os anos de 1837 e 1901. O nome “vitoriana” vem justamente de “Victoria”, porque seu longo reinado acabou se tornando símbolo de toda uma época, não apenas política, mas também social, cultural e econômica. O significado da Era Vitoriana vai além de uma simples divisão de datas. Ela representa um período de grandes contrastes: O autor Charles Dickens, em seu livro A Tale of Two Cities, um romance histórico publicado originalmente em 1859, descreveu sobre aquele período dizendo:

Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos; era a idade da sabedoria, era a idade da tolice; era a época da crença, era a época da incredulidade; era a estação da luz, era a estação das trevas; era a primavera da esperança, era o inverno do desespero.”

E talvez nenhuma frase explique tão bem as contradições humanas. Havia progresso, mas também vazio. Havia grandes salões iluminados, enquanto muitas pessoas viviam emocionalmente no escuro. A Era Vitoriana tornou-se um período marcante da história por representar a consolidação da Inglaterra como uma grande potência mundial durante o reinado da Rainha Victoria. Com a expansão do Império Britânico, o avanço da industrialização e o fortalecimento do comércio, o país ampliou sua influência política, econômica e cultural em diferentes partes do mundo. Essas tensões fizeram da Era Vitoriana um cenário de profundas transformações humanas, políticas e culturais.

É justamente nesse cenário que encontraremos algumas das próximas obras desta coluna, especialmente analisaremos os romances das irmãs Brontë.

Charlotte, Emily e Anne Brontë escreveram mulheres que sentiam demais para o tempo em que viviam. Mulheres inteligentes, observadoras, solitárias, inquietas e, muitas vezes, deslocadas do mundo ao redor. Ler as Brontë não é apenas visitar a Inglaterra vitoriana; é perceber quantas perguntas humanas continuam atravessando os séculos.

E começaremos por Agnes Grey, de Anne Brontë.

Talvez porque Anne tenha sido, durante muito tempo, a irmã menos lembrada. Talvez porque Agnes Grey fale da experiência silenciosa de tantas pessoas que tentam permanecer gentis em ambientes duros. Ou talvez porque exista algo muito honesto na maneira como Anne escreve sobre trabalho, dignidade, frustração e sensibilidade feminina sem exageros românticos.

É um livro delicado, mas não fraco.

E acredito que começar por ele seja uma boa maneira de abrir as portas desta jornada literária sem pretensão, sem exigências e sem medo dos clássicos. Se você nunca leu uma obra vitoriana, talvez esse seja o momento.

E se já leu, espero que venha comigo revisitar essas histórias com um olhar mais humano do que acadêmico.

Nas próximas semanas, seguiremos juntos entre páginas antigas, personagens inesquecíveis e impressões muito pessoais sobre aquilo que os livros ainda conseguem despertar em nós.

A próxima análise será sobre Agnes Grey.

Até breve!

@jacqueestouaqui

Leia Mais

Colunistas

Oie, eu sou Jacqueline Scheibe.

Uma leitora qualquer — mas talvez não qualquer leitora. E antes que você pense que esta será apenas mais uma coluna sobre livros difíceis, autores antigos ou análises distantes da vida real, eu queria te fazer um convite simples: dê

Leia mais »
Scroll to Top