Antes de acessarmos o universo de Agnes Grey, vale a pena conhecer um pouco a mulher que deu vida a essa narrativa tão cativante. Entre as célebres irmãs Brontë, Anne costuma ocupar um lugar mais discreto na memória dos leitores, frequentemente ofuscada pela intensidade de Emily e pela popularidade de Charlotte. No entanto, talvez seja justamente nela que encontremos a observadora mais aguda da realidade cotidiana da Inglaterra vitoriana, fato que muitas vezes o leitor vai se deparar com um verdadeiro “dedo na ferida” da sociedade vitoriana da época, especialmente no que tange a educação dos filhos das famílias mais abastadas.
Criada na pequena aldeia de Haworth, no norte da Inglaterra, Anne Brontë cresceu em uma família marcada tanto pela tragédia quanto pela imaginação. Daquele ambiente doméstico surgiriam algumas das obras mais importantes da literatura inglesa do século XIX.
Agnes Grey pode ser considerado um romance de formação (Bildungsroman), embora de uma forma mais sutil e menos tradicional do que outros exemplos famosos do gênero. O romance de formação acompanha o desenvolvimento psicológico, moral e social de um personagem ao longo de sua trajetória rumo à maturidade. Em Agnes Grey, Anne Brontë constrói justamente esse percurso. No início da narrativa, Agnes é uma jovem idealista, protegida pela família e relativamente ingênua em relação ao mundo. Ao decidir trabalhar como governanta, ela acredita que sua educação, sua boa vontade e seus princípios serão suficientes para conquistar respeito e sucesso profissional. A própria Anne trabalhou como governanta durante alguns anos, experiência que serviu de inspiração para seu primeiro romance
Filha de um pastor anglicano, perdeu a mãe ainda na infância e, junto aos irmãos, encontrou na leitura e na escrita um refúgio diante das sucessivas perdas que atravessariam a família. Quando foi publicado, o livro recebeu uma recepção relativamente discreta. Ao contrário das paixões tempestuosas que caracterizam O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, ou das jornadas de afirmação pessoal presentes em Jane Eyre, de Charlotte Brontë, Anne voltou seu olhar para as injustiças silenciosas da vida comum. Seus dois romances, Agnes Grey e A Inquilina de Wildfell Hall, (em algumas traduções A Senhora de Wildfell Hall) revelam uma escritora interessada em compreender as relações de poder, os limites impostos às mulheres e os efeitos das desigualdades sociais.
E que época era essa? Anne viveu durante os primeiros anos da Era Vitoriana, período frequentemente associado à prosperidade econômica, ao crescimento industrial e à expansão do Império Britânico. Entretanto, por trás da imagem de progresso, encontrava-se uma sociedade profundamente hierarquizada e marcada por rígidas distinções de gênero. As mulheres não possuíam direitos políticos, enfrentavam severas restrições legais e tinham poucas possibilidades de autonomia financeira. Para muitas delas, especialmente as órfãs ou sem patrimônio familiar, o casamento ou o trabalho como governanta eram as alternativas mais viáveis de sobrevivência.
É justamente nesse contexto que surge a protagonista de Agnes Grey. A figura da governanta ou preceptora ocupava uma posição ambígua na sociedade vitoriana. Possuía educação e refinamento suficientes para instruir os filhos das famílias abastadas, mas não era considerada parte daquela elite. Também não se confundia com os demais empregados domésticos. Situava-se em uma espécie de fronteira social: próxima
Publicado em 1847 sob o pseudônimo Acton Bell, Agnes Grey foi o primeiro romance de Anne Brontë e permanece como uma das representações mais realistas da condição feminina na Inglaterra vitoriana. Embora tenha sido lançado no mesmo período que Jane Eyre, de Charlotte Brontë, e O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, o livro seguiu um caminho distinto: menos marcado pelo drama e pela paixão, e mais interessado em retratar a vida cotidiana e as limitações sociais impostas às mulheres.
Importa frisar aqui, que fora utilizado para leitura e análise a edição da Martin Claret, traduzida por Paulo Cézar Castanheira:

Editora : Martin Claret
Data da publicação : 31 março 2020 Edição : integral
Idioma : Português
Número de páginas : 257 páginas
Alerta de spoilers!
Após experiências frustrantes em diferentes casas, como por exeplo na primeira casa em que Agnes encontra trabalho ela passa a ser goveranta de três crianças: Os filhos dos Bloomfield. São então retratados como resultado de uma educação permissiva e sem limites. Tom Bloomfield é o mais problemático: mimado, egoísta e cruel, ele pratica atos de maldade, como torturar animais, sem sofrer qualquer consequência, já que os pais ignoram ou até incentivam seu comportamento. Já Mary Ann, Fanny e Harriet também são indisciplinadas e pouco interessadas nos estudos. Elas desobedecem, desafiam a governanta e evitam suas responsabilidades, mas não apresentam o mesmo nível de crueldade de Tom, sendo retratadas mais como crianças mal-educadas do que perversas. E aqui surgem sérias dificuldades para Agnes, se por um lado ela tenta ensinar valores morais, disciplina e a instrução própria dos estudos, ela encontra pais extremamentes condescendentes com as falhas e desvios de caráter dos filhos.
Na segunda parte de Agnes Grey, a protagonista passa a trabalhar para a família Murray, e é nesse ambiente que Anne Brontë amplia sua crítica social para além da infância mal-educada e adentra o universo da elite jovem, especialmente as relações de corte, vaidade e interesse econômico que sustentam o chamado “mercado matrimonial” vitoriano. Trata-se de um deslocamento importante na narrativa: se antes a autora expunha os excessos da educação infantil, agora ela revela as engrenagens sociais que moldam o destino das mulheres adultas.
Na casa Murray, Agnes é responsável pela educação de duas jovens irmãs: Rosalie Murray e Matilda Murray. Rosalie é apresentada como a mais bela e, ao mesmo tempo, a mais socialmente ambiciosa. Extremamente vaidosa, ela concentra sua atenção em vestidos, aparências e, sobretudo, no olhar masculino que a valida socialmente. Sua
formação não parece orientada para o desenvolvimento intelectual ou moral, mas para a construção de uma presença sedutora e estrategicamente ajustada às expectativas da sociedade. Em contraste, Matilda Murray surge como uma figura mais rústica, independente e pouco interessada nas convenções femininas da época, o que a coloca em oposição direta à irmã e evidencia diferentes formas de resistência — ou adesão — ao papel social esperado das mulheres.
Agnes observa ambas com crescente lucidez, mas é em Rosalie que ela enxerga com mais nitidez a deformação de uma educação que não forma caráter, e sim aparência. A jovem não é apenas vaidosa; ela é moldada para compreender a si mesma como um instrumento de ascensão social.
É nesse contexto que surge o círculo de “cavalheiros” que frequentam a casa Murray, compondo o cenário de flerte e negociação implícita que marca a elite vitoriana. Entre eles, destaca-se Sir Thomas Ashby, também referido como Aston, um homem rico, aristocrático e profundamente arrogante, cuja atenção se volta para Rosalie principalmente por sua beleza e pelo potencial que ela representa dentro da lógica social de sua classe. Ao redor deles, outros homens circulam com intenções semelhantes, variando apenas no grau de riqueza, prestígio ou ambição, mas sempre inseridos na mesma estrutura: o casamento como transação social, mais do que como união afetiva.
O núcleo dramático dessa fase do romance se concentra justamente no flerte entre Rosalie Murray e Sir Thomas Ashby. Rosalie se deixa envolver pela ideia de ascender socialmente por meio de um casamento vantajoso, enquanto Sir Thomas a observa como uma candidata adequada dentro de seu próprio universo aristocrático. O interesse entre ambos não nasce da intimidade emocional, mas de uma espécie de cálculo silencioso, no qual cada gesto é interpretado em termos de posição, reputação e conveniência.
Com o tempo, o que parecia uma promessa de ascensão para Rosalie começa a se desfazer. Sua beleza e juventude, que sustentavam seu valor dentro daquele mercado social, deixam de ser suficientes para garantir o interesse contínuo de pretendentes mais ricos e influentes. Sir Thomas Ashby, por sua vez, gradualmente se afasta, encerrando qualquer expectativa de compromisso sério. O que resta é o esvaziamento de um projeto de vida construído inteiramente sobre a lógica da aparência e da conveniência.
Rosalie, que havia organizado sua identidade em torno da ideia de um casamento vantajoso, vê suas expectativas ruírem. Anne Brontë utiliza esse desfecho não como punição individual, mas como crítica estrutural: o sistema social vitoriano, ao transformar o casamento em instrumento de mobilidade econômica, também produz frustrações inevitáveis para mulheres que dependem desse mecanismo para garantir estabilidade.
E paralelao aos flertes de Rosalie, Agnes é levada a realizar visitas aos pobres e doentes da paróquia, algo que ela faz com muita boa vontade e nesse espaço fora das casas aristocráticas, longe do jogo social e das vaidades que antes a cercavam, é que a narrativa encontra sua forma mais humana. Enquanto conforta enfermos e observa a precariedade da vida dos mais humildes, ela passa a ser observada pelo jovem Edward Weston, o vigário da paróquia onde Agnes passa a viver e atuar na segunda fase do romance.
Ele é apresentado como um homem simples, reservado, trabalhador e moralmente íntegro, bastante diferente dos cavalheiros da elite que cercam a família Murray. Não pertence à aristocracia nem busca status social; sua identidade está ligada ao trabalho religioso e ao cuidado pastoral da comunidade. A relação entre os dois não começa como paixão, mas como convivência e reconhecimento de valores
compartilhados. Agnes observa nele alguém confiável e coerente, enquanto ele percebe nela uma mulher sensível, observadora e diferente das jovens da elite.
Vale à pena ler Agnes Gray? Vale muito! Imagine que você agora decidiu conhecer um pouco mais do mundo das Brontë, iniciar-se nos clássicos, e diga-se de passagem, é um romance curto e ótimo para iniciantes.
Para nossa próxima análise anuncio o que particularmente considero a obra mais visceral de todas, escrito pela irmã Brontë: O morro dos Ventos Uivantes, poderia dizer que é uma, ou se não, a mais consagrada das obras das irmãs Brontë e a mais visceral de todas. Emily escreveu um único livro, tendo sua vida ceifada muito cedo, mas isso a gente descobre na próxima análise. Aguardo você por lá!
Jacqueline Scheibe
@jacqueestouaqui

